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  • 04abr

    Veja.com

    Michael Walzer, professor de Harvard e autor de várias obras, entre elas Just and Unjust Wars

    A intervenção militar da coalizão ocidental na Líbia tem sido duramente criticada com argumentos que apontam desde a confusão de seus objetivos até os danos que causou aos civis que devia, por definição, proteger. Para Michael Walzer, renomado filósofo político americano, professor da Universidade Harvard e autor do clássico Guerras Justas e Injustas (Martins Fontes) a guerra na Líbia não é prudente, mas é justa. “Estamos intervindo em um país que não conhecemos muito bem, a favor de forças políticas que conhecemos ainda menos. E não é muito prudente entrar em situações desse tipo”, diz. Contudo, o especialista acredita que “uma intervenção para impedir um massacre pode ser considerada uma guerra justa”.

    Não tão condescendente é a visão do intelectual sobre a abstenção do Brasil na votação do Conselho de Segurança da ONU sobre a criação de uma zona de exclusão aérea na Líbia. “O governo brasileiro sequer assumiu a responsabilidade de dizer sim ou não. Muitos países querem que os Estados Unidos façam o trabalho duro para que eles não tenham de sujar as mãos. É hora desse jogo terminar”, afirma. Confira os principais trechos da entrevista.

    Um de seus livros se chama Guerras Justas e Injustas. O que o senhor considera uma “guerra justa”?
    Trata-se de uma guerra de autodefesa ou uma luta em defesa de outros. E hoje, nós não entendemos como “outros” apenas países que estejam defendendo a si mesmos, mas populações que estão sendo atacadas por seus próprios governos, como ocorreu em Ruanda, em 1994, ou Darfur, mais recentemente. Seguindo esses critérios, uma intervenção para impedir o que nós acreditamos que seria um massacre em Bengasi (capital rebelde, na Líbia) pode ser considerada uma guerra justa.

    Então, o senhor acredita que a decisão do Conselho de Segurança da ONU de aprovar uma zona de exclusão aérea na Líbia foi acertada?
    Foi uma decisão justa, mas não prudente. Tentamos derrubar o regime sem ter ideia do que virá depois. Além disso, estamos intervindo em um país que não conhecemos bem, a favor de forças políticas que conhecemos ainda menos. Tampouco sabemos se haverá uma guerra civil pela sucessão de Kadafi. Não é muito prudente entrar em situações desse tipo. O que seria correto fazer? Não sei. Estou muito feliz de não ter que tomar essa decisão.

    O que o senhor diria sobre a abstenção do Brasil na votação do Conselho?
    O governo brasileiro sequer assumiu a responsabilidade de dizer ‘sim’ ou ‘não’ e essa não é uma postura sábia. Na realidade, o Brasil desejava que a intervenção ocorresse, mas não queria assumir a responsabilidade sobre as suas consequências. Eu sinto muito que outros países do Conselho e até os governos árabes em geral tenham adotado a mesma postura. Eles não querem sujar as mãos. Ainda, se os EUA falharem, vão ser condenados mais tarde. É hora desse jogo terminar.

    Quando a decisão da ONU foi aprovada, não se sabia ao certo o que ela autorizava: derrubar Kadafi, proteger civis ou atacar alvos do governo…
    O objetivo inicial foi prevenir um massacre em Bengasi. O governo estava prestes a tomar as últimas cidades controladas pelos rebeldes. Mas, uma vez comprometida com isso, a coalizão acabou atuando também para garantir que Kadafi perca não só esta batalha, mas toda a guerra. Agora já está muito mais claro que este é o objetivo e eu não acredito que o Conselho de Segurança vá reconsiderar a decisão.

    E quanto tempo o senhor acha que o conflito deve durar?
    Pode haver deserções maciças das forças de Kadafi, já que elas estão sob muita pressão, e o regime cair repentinamente. Por outro lado, se o ditador mantiver o apoio estratégico de sua própria tribo e de grupos leais a ele no leste, a guerra pode levar meses.

    A princípio, a resolução da ONU tinha o objetivo de proteger civis. Mas agora muitos estão morrendo por causa dela…
    Toda guerra produz casualidades entre civis, isso é chamado de “efeito colateral” e não de “massacre”, como ocorreria em Bengasi. Por outro lado, se produzirmos uma longa guerra civil, o efeito poderia ser pior do que se não agíssemos.

    O que mudará na operação agora que a Otan assumiu a liderança?
    O papel americano será reduzido e alguns navios serão removidos do Mediterrâneo. Os britânicos e franceses deverão participar mais das ações militares. Nos primeiros dias de intervenção, quando os ataques aéreos eram mais necessários, as forças americanas eram úteis, pois têm uma tecnologia de ponta nessa área. Mas agora, que as defesas aéreas de Kadafi foram destruídas, os EUA poderão se envolver menos.

    Os presidentes da França, Nicolas Sarkozy, e dos EUA, Barack Obama, vão enfrentar eleições em 2012. Mas, por que o primeiro quer o máximo de envolvimento com a operação na Líbia, enquanto o segundo o evita o quanto pode?
    Sarkozy quer marcar posição como um líder forte e limpar sua imagem, que ficou desgastada desde a insurreição na Tunísia. O governo francês era muito próximo ao ditador Zine Al-Abidine Ben Ali e não percebeu a tempo que essa era uma má conexão. Quanto a Obama, ele está preso em uma guerra no Iraque e outra no Afeganistão e não há muito apoio nos EUA a mais uma guerra em um país muçulmano. O presidente está tão desconfortável com a decisão da intervenção militar, que resistiu a ela até o último minuto.

    O fato de Obama não ter feito um pronunciamento sobre a intervenção militar logo após a decisão, durante sua viagem ao Brasil, foi mal visto nos EUA?
    Ele só falou ao povo americano sobre o assunto na última segunda-feira, que era o décimo dia da operação. Em casos de guerra (claro que ele não chama e não chamará a operação de “guerra”, mas é exatamente do que se trata esta intervenção), o presidente americano costuma fazer seu pronunciamento logo no primeiro dia. Ele não discursou em um momento crucial e isso pegou muito mal para uma boa parcela dos americanos.

    O que as revoltas no Oriente Médio significam para os EUA?
    Há algumas questões para nós: que papel queremos assumir no mundo? Queremos ter responsabilidades militares? Afinal, depois da crise financeira mundial, a nossa economia não é mais a mesma e nós não conseguimos lidar nem com os compromissos militares que já assumimos. Obama parece acreditar que os Estados Unidos não devem assumir sozinhos o papel de “polícia do mundo”. Todas essas questões ainda estão em debate no país.

    Em um de seus artigos, o senhor se posiciona contra intervenções externas para o estabelecimento da democracia em um país. Por quê?
    Neste artigo, eu cito a tese do filósofo inglês do século XIX, John Stuart Mill. Ele argumenta que a única maneira de a democracia se estabelecer em um país é pelo esforço de seu próprio povo. Se um Exército estrangeiro põe no poder um governo, mesmo que seja eleito pelo povo, ele não terá legitimidade e tende a ser eternamente dependente das forças internacionais. Democracia é um sistema que depende do consentimento do povo por definição.

    Como seria a Líbia pós-Kadafi?
    A verdade é que ninguém sabe exatamente o que vai ocorrer. Pode haver uma guerra civil, impulsionada pela divisão entre as tribos. Ou uma luta entre forças políticas não-tribais, como grupos laicos contra os islâmicos. Estamos jogando um dado, mas ainda não sabemos de que lado ele vai cair.

    Publicado por jagostinho @ 12:54



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