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  • 14jan

    LUCAS MENDES/DE NOVA YORK PARA BBC BRASIL

    Tempo de eleição, tempo de carisma. Os carismatólogos – ou carismatologistas – medem os candidatos pelo carisma, e numa eleição em que tudo acontece na frente da televisão, frases, atitudes e aparências definem vencedores.

    Mitt Romney tem pinta de presidente no cinema e na TV, mas seu esforço para agradar desperta desconfiança.

    Os carismatologistas dizem que carisma pode ser nato, aprendido, perdido ou recuperado e este é o caso de Mitt.

    Em dezembro, a revista Time colocou a metade do rosto de Mitt na capa com a pergunta: Why don’t they like me? (Por quê eles não gostam de mim?).

    Esta semana, numa decisão editorial sem precedentes, a revista colocou a outra metade do rosto de Mitt na capa com a pergunta: So, you like me now? (Então, você gosta de mim agora?).

    Gostaram dele em Iowa e mais ainda em New Hampshire.

    Quando o governador do Texas Rick Perry entrou no páreo com bravatas e sorriso contagiantes, arrebentou o medidor de carisma. Seus índices de aprovação pareciam invencíveis. Deixou Mitt no chulé, mas num dos primeiros debates, ele teve um branco e esqueceu o nome de um dos três ministérios que promete fechar logo que for eleito.

    Em 53 angustiantes e cômicos segundos, o barril de carisma de Perry se esvaziou.

    John Huntsman, ex-governador de Utah e embaixador americano de Obama na China, também tem pinta de artista de cinema e pose de presidente, mas o carisma dele conquista o partido errado. Huntsman acha criacionismo ridículo, acredita no aquecimento do planeta e se referiu a Obama como um grande líder.

    Mesmo se injetassem nele dois barris de carisma não terá a menor chande nesta eleição.

    O carisma de Newt Gingrich foi uma das surpresas da campanha. Com um plá cordial e lições de história, se tornou a esperança aconchegante do partido. Quando chegou lá em cima levou tanto chumbo que terminou em quinto lugar em Iowa e quarto em New Hampshire.

    Um amigo bilionário comprou milhões de dólares em comerciais para destruir, de novo, o carisma de Mitt Romney, mas não há dinheiro que compre de volta o de Newt Gingrich.

    O carisma de Rick Santorum, com seu radicalismo anti-gay, anti-Irã, pró-Israel e seu pullover de gola em V, deu um choque em Mitt em Iowa, depois evaporou em New Hampshire. Se não ressuscitar na Carolina do Sul, poderá voltar a ser comentarista de TV. Pinta ele tem de sobra.

    Nenhum tanque de carisma resistiria aos absurdos da candidata Michele Bachman, mas a resistência do deputado Ron Paul, de 76 anos, desafia os carismatologos. Metade do votos dele vem de eleitores com menos de trinta anos.

    Qual a sedução? Nem com todo petróleo saudita o carisma dele vai conquistar o país em novembro.

    E Barack Obama? Ganhou uma eleição no carisma. Sua experiência fora da política era inexpressiva e na política o currículo era curto. Foi na base do plá, mas não está entre os mais presidentes americanos mais carismáticos que, pelas pesquisas, são, pela ordem, Bill Clinton, John Kennedy e Ronald Reagan.

    Sessenta por cento do carisma evaporou do barril porque as expectativas econômicas não foram correspondidas.

    O fenômeno já aconteceu com dezenas de líderes, entre eles Winston Churchill, o mais carismático primeiro-ministro inglês do século 20 antes da Segunda Guerra. Na paz, foi descarismatizado e derrotado nas eleições logo depois da vitória.

    Carisma não é fenômeno eleitoral de TV. A palavra grega significava um “presente dos Deuses”, uma qualidade intangível, indefinida e imensurável. No Novo Testamento, São Paulo se refere 7 vezes ao carisma , no plural, ” carismata”, uma qualidade divina e misteriosa como a “graça” da Virgem Maria.

    O maior especialista americano em carisma é Joseph Roah, que escreveu um livro sobre carisma com o título It, “aquilo”.

    Roach define: “carisma é o poder de, sem esforço, assumir qualidades contraditórias como força e vulnerabilidade, inocência e experiência, ser singular e comum ao mesmo tempo”.

    Em francês, carisma é um je ne sais quoi, um “não sei o quê”, em italiano, sprezzatura, a misteriosa qualidade de entrar numa sala e chamar atenção sem fazer esforço.

    No MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, quase nada é mistério. Seus laboratórios desafiam o imensurável e desenvolveram o sociometer, um aparelho do tamanho de um iPhone, que mede carisma.

    Um sensor registra todos movimentos e um minimicrofone que grava o plá. Jogam tudo no computador, que compara os dados com medidas dos bem sucedidos na vida.

    Um presente dos deuses para medir como anda o nível do barril.

    Publicado por jagostinho @ 13:15



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