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  • 17mar

    ALVARO PEREIRAÁLVARO PEREIRA JÚNIOR   –   graduado em química e jornalismo pela USP, com especialização em jornalismo científico pelo MIT. Trabalha no programa “Fantástico”, na TV Globo. Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de “Ilustrada”.

     

    Existe uma igreja católica onde os fiéis, se é que existem, não fazem a menor ideia de que um novo papa foi eleito. Talvez não saibam nem que o antecessor renunciou, ou mesmo qual era o nome do papa anterior.

    Essa catedral do absurdo fica na Coreia do Norte. Mais exatamente na capital, Pyongyang. Foi construída em 1988, durante um suposto relaxamento da repressão antirreligiosa do regime stalinista.

    A igreja de Changchun não tem bispo, padre, nada. Os poucos serviços religiosos são tocados pelos próprios frequentadores.

    Uma estrangeira que sempre participa estima que só metade da congregação seja de fiéis legítimos. O resto são paus mandados do serviço de espionagem.

    Esses dados sobre religião no regime mais fechado do mundo são só alguns entre tantos de um livro fascinante: “Only Beautiful, Please: A British Diplomat in North Korea” (“Só Bonitas, Por Favor: Um Diplomata Britânico na Coreia do Norte”). O autor é John Everard, embaixador da Grã-Bretanha de 2006 a 2008.

    O título estranho se refere a um episódio em que um policial flagrou o diplomata tirando fotos em lugar não autorizado.

    Louco para exibir o pouco de inglês que falava, o tira ordenou: “Only beautiful!” (era para fotografar só as coisas bonitas).

    A Coreia do Norte que emerge do livro não é o Estado policial sombrio de que tanto ouvimos falar.

    É um país de feições humanas, que preza as relações familiares, procura se divertir dentro dos parcos meios de que dispõe e, principalmente, acorda aos poucos de um longo torpor, percebendo que não é o paraíso que a propaganda totalitária vende à população há mais de 50 anos.

    Everard faz compras em grandes mercados de rua. Anda de bicicleta para todo lado (às vezes até escapa –diz ele que inadvertidamente– da área permitida para estrangeiros).

    Vai a restaurantes frequentados pela população comum. Até pega metrô, coisa que quase nenhum estrangeiro faz.

    Mais do que um regime que subjuga a população com punhos de aço, Everard –que deixou a Coreia do Norte quando Kim Jong-il, pai do atual ditador, ainda estava no poder–, descreve um sistema de repressão cada vez mais ineficiente e corrupto.

    Para o inglês, o ponto de virada se deu na grande epidemia de fome de 1994 a 1998, quando cerca de 2 milhões de pessoas morreram, 10% da população.

    Sem alternativa, Kim Jong-il foi obrigado a abrir o país para a ONU e ONGs de apoio humanitário. Os norte-coreanos passaram a ter contato com estrangeiros –em sua maioria, gente educada e saudável, que ainda por cima lhes trazia comida e atendimento médico.

    Mas como? A Coreia do Norte não era a mais próspera das nações, em meio a um mundo corrupto e miserável? E os estrangeiros não eram todos agentes do imperialismo dispostos a tudo para liquidar os norte-coreanos?

    Quando, a duras penas, a epidemia de fome foi superada, Kim Jong-il expulsou a grande maioria das ONGs, mas aí já era tarde -a semente da desconfiança já tinha sido plantada.

    A tecnologia também passou a conspirar contra o regime. Pela fronteira com a China, cada vez mais porosa (pelo menos para os padrões de um regime totalitário), começaram a entrar no país DVDs com novelas sul-coreanas.

    Os coreanos do norte viram então que seus vizinhos não eram um bando de mendigos ultraviolentos, nem Seul era um amontoado de favelas patrulhadas por sádicos soldados americanos (era isso o que dizia a propaganda oficial).

    Perceberam que a Coreia do Sul é um país infinitamente mais rico e livre, embora de costumes liberais em excesso para o gosto norte-coreano.

    Talvez a análise de Everard seja otimista demais, em especial depois de o regime do novo ditador, Kim Jong-un, ter feito novos testes nucleares e subido o tom de belicosidade.

    Pode ter acontecido um embrutecimento que o britânico não conseguiu prever. Ainda assim, seu livro tem muitos méritos.

    Fica também um recado para as editoras do Brasil: façam contato com os diplomatas brasileiros que servem em Pyongyang.

    Com a tradição literária do Itamaraty (João Cabral, Rosa, Vinicius etc.), não é difícil que se produza um retrato ainda mais interessante que o de John Everard.

    A ginga brasileira explica a dinastia totalitária dos Kim. Essa, eu pagaria para ler.

    Publicado por jagostinho @ 18:54



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