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  • 25mar

    FOLHA.COM

    CRISTINA E O PAPA

    Na última semana, dois cartazes tomaram conta das ruas de Buenos Aires. Um deles traz uma foto de close das mãos de Cristina Kirchner e do papa Francisco, no encontro que tiveram em Roma.

    Um passa para o outro uma caneca de mate, a bebida típica argentina. “Compartilhamos esperanças”, diz.

    O outro, mais direto, é uma foto do pontífice com as inscrições: “argentino e peronista”.

    A tentativa que o governo kirchnerista está fazendo de associar o papa a suas bandeiras vai além de uma estratégia política de curto prazo.

    “Peronizar o papa é um movimento natural de atração de duas forças que compartilham um mesmo mito, o da grande pátria popular rendida a um líder poderoso”, diz à Folha o sociólogo italiano Loris Zanatta, autor de “Perón e o Mito da Nação Católica”.

    O próprio Francisco atuou numa organização peronista de direita em sua juventude, a chamada Guarda de Hierro, inspirada numa associação romena do mesmo nome.

    Os diversos tipos de peronismo e a igreja têm um forte vínculo, iniciado nos anos 40. Durante seu primeiro governo, Juan Domingo Perón (1895-1974) apoiou-se no trabalho realizado por religiosos nas periferias

    . Seu discurso de governar para os pobres, pregando a caridade, conquistou religiosos e fiéis.

    Os problemas começaram quando Perón e sua mulher, Evita, tentaram tomar o lugar central de Deus na adoração popular.

    “Surgiram os manuais escolares que pregavam que Perón era o grande pai e Evita, a grande mãe do povo. As crianças passaram a ser educadas para adorá-los”, diz o historiador Ricardo De Titto, autor de “História das Eleições na Argentina”.

    A igreja passou a irritar-se com a atuação de Perón e com o fato de sua mulher ser chamada de “Santa Evita”, por suas ações de caridade com relação aos mais pobres.

    Perón, por sua vez, começou a construir pontes com líderes de outras religiões e a defender alterações nas leis civis, propondo o divórcio, e educativas, tirando poder das instituições religiosas.

    O conflito se acirrou e, entre 1954 e 1955, tomou contornos violentos. Padres passaram a criticar o governo abertamente nas missas, Perón expulsou religiosos do país, enquanto associações peronistas deram início à queima e destruição de igrejas.

    O embate, porém, retrocede nos anos 70, durante a ditadura militar, quando tanto o peronismo como o catolicismo voltaram a ter de trabalhar juntos na reconquista popular.

    Nessa época, o setor mais institucional e conservador da igreja manteve-se próximo ao poder, em alguns casos colaborando com a repressão, enquanto nas periferias proliferavam os jovens padres revolucionários (chamados terceiro-mundistas), ligados ao peronismo de esquerda.

    Nesse momento, surgiu ainda o braço mais radical da luta contra a repressão do Estado, o grupo guerrilheiro peronista Montoneros, de origem católica.

    “Os Montoneros obedeciam a uma liturgia e a uma hierarquia muito parecidas às da igreja. Consideravam-se soldados com uma missão reformadora do homem. Tanto que os militares, no fundo, queriam convertê-los. Houve tentativas de fazê-los mudarem de lado, o que não acontecia com os guerrilheiros comunistas, considerados sem esperança de ‘redenção'”, explica De Titto.

    Os historiadores identificam os anos da volta à democracia, durante a gestão de Raúl Alfonsín (1983-1986), como o único período em que peronismo e religião não estiveram em primeiro plano na política argentina.

    “O grande responsável pela recuperação de espaço dos católicos no poder foi o peronista de direita Menem, que voltou a colocar a igreja num primeiro plano. Do ponto de vista da relação entre poder e religião, foi como se voltássemos a Perón. Menem quis recuperar esse papel de pai da pátria, associado às religiões, e estendeu pontes também a outras. Queria ser um pai da pátria através da fé”, diz De Titto.

    Já o kirchnerismo, até a eleição do papa Francisco, afastou-se desse modelo. Mais relacionado a um peronismo de esquerda e laico, promoveu um afastamento da igreja, representada já pelo então cardeal Bergoglio.

    Bergoglio incomodava os Kirchner com suas críticas ao modo como conduziam a economia. Ao seu modo de ver, sem diminuir os níveis de desigualdade do país.

    A igreja, ainda, opunha-se às leis de direitos civis, como o matrimônio gay e o aborto por estupro, aprovadas com estímulo expresso do Executivo.

    A ida de Cristina ao Vaticano, suas palavras doces a Francisco e os cartazes espalhados por Buenos Aires sinalizam que a presidente deseja compor com o papa.

    “Se o peronismo é o povo, o povo é católico e o papa é argentino, Cristina terá de abraçá-lo se quiser sobreviver politicamente. Ela não tem outra alternativa”, conclui Zanatta.

    Publicado por jagostinho @ 16:31



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