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  • 14abr

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    O presidente interino da Venezuela, Nicolás Maduro e o candidato opositor Henrique Capriles durante campanha

    O presidente interino da Venezuela, Nicolás Maduro e o candidato opositor Henrique Capriles durante campanha

     

    A morte de Hugo Chávez, no dia 5 de março, abalou um dos pilares de regimes totalitários como o ensaiado pelo coronel na Venezuela: o culto à personalidade.

    Agora, o esforço dos órfãos políticos de Chávez é manter sua figura presente para os venezuelanos, que vão às urnas neste domingo, nas eleições presidenciais.

    O clima de comoção nacional criado após a morte, com um velório prolongado e até mesmo o fracassado plano de embalsamar o caudilho, deve favorecer os governistas na disputa com o oposicionista Henrique Capriles.

    Mesmo com uma possível vitória, no entanto, não parece plausível acreditar que Nicolás Maduro, presidente interino e candidato oficialista, conseguirá manter inalterado o cenário na Venezuela.

    Diante da interrogação deixada por Chávez, cabe perguntar se o movimento que ganhou o nome do coronel pode perdurar ainda que em uma versão diluída, como aconteceu com o peronismo na Argentina. 

    Juan Domingo Perón (1895-1974) e Hugo Chávez (1954-2013) tinham em comum os discursos populistas. Ambos mostraram traços autoritários, em muitos momentos ignoraram os direitos individuais e polarizaram a sociedade.

    Foram criticados pelos setores empresariais e pelos partidos políticos mais tradicionais. Mesmo assim, foram eleitos e reeleitos.

    Porém, há diferenças consistentes na evolução dos movimentos liderados pelas duas figuras, que indicam que o chavismo pode ter um destino diferente do peronismo. 

    “A principal diferença entre os dois movimentos é que Perón se tornou moderado ao longo de seus mandatos, mostrando uma flexibilidade ideológica que Chávez nunca mostrou”, diz o analista político e historiador argentino Rosendo Fraga, diretor do centro de estudos Unión para la Nueva Mayoría. 

    Outra questão a ser considerada é que o peronismo hoje, na Argentina, desmembrou-se em várias vertentes. A herança populista e autoritária de Perón passou a servir para qualquer propósito político, da extrema direita à extrema esquerda. 

    “Vários grupos da sociedade se assumem peronistas, mas muitos deles pouco têm a ver com os ideais originais de seu líder inspirador. Cristina Kirchner, por exemplo, nada tem a ver com Perón ou mesmo Néstor, embora também se considere peronista”, diz o argentino Mario Gaspar Sacchi, professor do curso de Relações Internacionais da ESPM.

    Segundo Julio Blanck, editor-chefe do jornal argentino Clarín, observadores internacionais – e mesmo os próprios argentinos – muitas vezes se perguntam o que é o peronismo hoje, tantas décadas depois de sua criação.

    “O movimento continua vigente na Argentina porque é visto por diversos setores e pela opinião pública como o único partido verdadeiramente capaz de governar de forma sólida o país. Ao longo dos anos, o peronismo se tornou muito amplo, e hoje reúne grupos de esquerda e direita, cristãos e não cristãos, conservadores e liberais”, afirma o jornalista. 

    “Se no ano de seu surgimento, em 1944, o peronismo tinha raízes populares, com forte presença no mundo sindical e entre os trabalhadores, mais recentemente ele é o partido que transmite a sensação de que, para além das ideologias, pode ajudar diferentes setores a alcançar suas próprias reivindicações”, acrescenta. 

    Na análise do historiador Fraga, o peronismo presente na Argentina hoje é mais do que qualquer outra coisa, uma cultura política.

    “Hoje, o peronismo é visto como um partido, um movimento, uma doutrina, uma ideologia, mas, acima de tudo, uma cultura política – muitas vezes radical -, que reflete as ambiguidades, complexidades e contradições da sociedade argentina. Ele ampliou sua capacidade de representação e é defendido por diversos setores muito diferentes.

    Na última eleição presidencial, por exemplo, a centro-esquerda peronista votou por um setor do peronismo, que é o kirchnerismo, ao mesmo tempo em que setores mais conservadores, também peronistas, votaram pelos candidatos do peronismo anti-kirchnerista”.

    Araújo Cecília 

    Com a eleição do novo papa, espalharam-se por Buenos Aires cartazes com a foto do pontífice e a frase: “Francisco. Argentino e peronista”
    Com a eleição do novo papa, espalharam-se por Buenos Aires cartazes com a foto do pontífice e a frase: “Francisco. Argentino e peronista”

     

    Papa Francisco – O peronismo de Botox de Cristina Kirchner já é uma variação do kirchnerismo de Néstor Kirchner. Com a eleição do novo papa, espalharam-se por Buenos Aires cartazes com a foto do pontífice e a frase: “Francisco. Argentino e peronista”.

    Um dos maiores críticos do governo durante seu arcebispado na capital argentina, Jorge Bergoglio certamente não faz parte da corrente cristinista, que tem base na classe média e distanciamento da Igreja.

    “Como o cargo do papa é de grande destaque no mundo todo, alguns políticos se aproveitaram disso para associar Bergoglio com o peronismo. Na verdade, ele era apenas um religioso de centro-esquerda e com consciência social”, diz Mario Gaspar Sacchi. 

    “Bergoglio manteve em sua carreira como sacerdote, bispo e cardeal um contato muito próximo com os sindicatos, com as favelas, com os pobres. Em sua juventude, durante a prisão de Perón, nos anos 1940, ele teria alguma ligação com um grupo conhecido como Guardia de Hierro – que definia o peronismo como a expressão política da fé cristã e que se dissolveu depois que Perón voltou ao poder -, mas nada comprovado”, conta Julio Blanck. 

    Como pontífice, ele representa uma ameaça muito maior para a presidente argentina e outros governantes latino-americanos com tentações populistas.

    Francisco, o simples, ofusca líderes que pretendem ser endeusados e obriga a uma reformulação do discurso social. Mas não inibiu tentativas oportunistas de atrelar a imagem ao novo papa à política regional.

    Uma das mais risíveis coube exatamente a Nicolás Maduro, que se diz “filho” de Chávez. Segundo a avaliação delirante do herdeiro, Chávez, do além, influenciou na escolha do novo papa.

    Chávez ‘peronista’ – Chávez se descrevia como um “verdadeiro peronista” – da mesma forma com que se chamava também de marxista e bolivariano –, por se identificar com o “sonho de Perón” de ver a América Latina livre do “imperialismo”.

    É verdade que, no início, Perón confrontava os EUA, mas ele nunca aderiu ao marxismo-leninismo como fez Chávez até seus últimos dias. O argentino, na verdade, era crítico da revolução cubana, de Fidel Castro e de Che Guevara.

    Por ter deixado de lado o discurso revolucionário e socialista, o peronismo conseguiu atrair setores da sociedade nacionalistas, conservadores e de direita. 

    “Há peronistas que apoiam o governo, e outros que são opositores. Há ainda alguns que fazem parte do estado, mas são críticos da administração de Cristina. Já os chavistas, pelo menos até agora, se mostraram unidos atrás da figura de Chávez – e agora de Maduro – e com diferenças internas menos visíveis”, afirma Blanck.

    Para o americano James McGuire, professor da Universidade de Wesleyan e autor do livroPeronismo sem Perón (1999), outro fator que favoreceu o peronismo foi o movimento ter criado uma base forte de apoiadores nas instituições sindicais, que já tinham uma longa história de autonomia e independência antes de Perón.

    “Mesmo que o partido peronista fosse proibido de participar das eleições, por exemplo, as pessoas que acreditam no peronismo poderiam usar os sindicatos para manter sua identidade viva. Na Venezuela, não há nada parecido. Todas as organizações ligadas ao chavismo foram criadas pelo próprio governo de Chávez”, diz.

    Futuro – Pode ser que o chavismo vire um movimento com vida própria, sustentado na visão do caudilho. Mas ainda é cedo para saber se os que tentam manter inalterado o poder na Venezuela terão força para enfrentar problemas de ordem prática, especialmente os econômicos e os ligados à questão da segurança pública.

    Além de terem de enfrentar a realidade de que lhes falta o carisma do coronel. 

    “O peronismo se mostrou capaz de se reciclar de acordo com as distintas demandas da sociedade argentina ao longo dos anos. Só saberemos se o chavismo vai sobreviver daqui a algumas décadas, se vai conseguir representar setores tão diferentes em seu país”, diz Blanck. 

    “Para que o chavismo persista, é preciso que haja uma transformação do movimento em uma cultura política, para além da ideologia. O peronismo hoje pode ser de esquerda ou de direita. Resta saber se o chavismo será capaz de se estender dessa maneira.”, completa Fraga. 

    Publicado por jagostinho @ 09:32



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