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  • 05jul

    CRISTOVAM BUARQUE

    GAZETA DO POVO

    ARTIGO DE CRISTOVAM BUARQUE

     

    As surpreendentes mobilizações dos últimos dias podem ser explicadas em dez letras: “caiu a ficha”. Não se sabe exatamente o que levou a ficha a cair neste exato momento, mas todos os ingredientes já estavam dados. A maior surpresa foi a surpresa.

    Caiu a ficha de que o Brasil ficou rico sem caminhar para a justiça: chegou a ser a sexta potência econômica, mas continua um dos últimos na ordem da educação mundial.

    Também caiu a ficha de que sem educação não há futuro, e de que, por isso, 13 anos depois de criado, o Bolsa Família continua necessário, sem abolir sua necessidade.

    Caiu a ficha de que, em 20 anos de governos social-democratas e dez anos do PT no poder, ampliamos o consumo privado, mas mantivemos a mesma tragédia nos serviços sociais, nos hospitais públicos e nas escolas públicas.

    Caiu a ficha de que o aumento no número de automóveis em nada melhora o transporte; ao contrário, piora o tempo de deslocamento e o endividamento das famílias.

    Caiu a ficha de que o PIB não está crescendo e, se crescesse, não melhoraria o bem-estar e a qualidade de vida. Caiu a ficha de que, no lugar de metrópoles que nos orgulham, temos “monstrópoles” que nos assustam.

    Caiu a ficha do repetido sentimento de que a corrupção não apenas é endêmica, ela é aceita; e os corruptos, quando identificados, não são julgados; e, se julgados, não são presos; e, se presos, não devolvem o roubo.

    E de que os políticos no poder desprezam as repetidas manifestações de vontade popular.

    Caiu a ficha de que o povo paga a construção de estádios, mas não pode assistir aos jogos. E de que a Copa não vai trazer benefícios na infraestrutura urbana das cidades-sede como foi prometido.

    Aos que viajam ao exterior, caiu a ficha da péssima qualidade de nossas estradas, aeroportos e transporte público.

    Caiu a ficha de que somos um país em guerra civil, onde 100 mil morrem por ano por assassinato direto ou indireto no trânsito.

    Caiu a ficha também de que as mobilizações não precisam mais de partidos que organizem, de jornais que anunciem, de carros de som que conduzam, porque o povo tem o poder de se autoconvocar por meio das mídias sociais.

    A praça hoje é do tamanho da rede de internet, e é possível sair das ruas sem parar as manifestações e voltar a marchar a qualquer momento.

    Na prática, caiu a ficha de que é fácil fazer guerrilha cibernética: cada pessoa é capaz de mobilizar milhares de outras de um dia para o outro em qualquer cidade do país.

    Mas entre os dirigentes nacionais ainda não caiu a ficha de que mais de 2 milhões de pessoas nas ruas não se contentam com menos que uma revolução.

    Mais de 2 milhões não param por apenas 20 centavos nas passagens de ônibus. Eles já ouvem as ruas, mas ainda não entendem o idioma da indignação.

    Não caiu a ficha de que é preciso fazer uma revolução na educação brasileira, especialmente na educação básica, por meio da federalização.

    Até porque não é possível oferecer educação de qualidade em municípios tão desiguais.

    Somente o governo federal poderá oferecer educação de qualidade já ofertada pelas 457 escolas federais (institutos de aplicação e colégios militares) nas mais de 156 mil escolas públicas municipais e estaduais.

    Assim, mais de 51 milhões de crianças e jovens teriam educação de excelência.

    É preciso fazer uma revolução na estrutura, nos métodos e nas organizações da política no Brasil: definir como eleger os políticos, como eles agirão, como fiscalizá-los e puni-los.

    Cristovam Buarque, professor da UnB, é senador pelo PDT-DF.

     

     

     

    Publicado por jagostinho @ 10:34



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