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  • 05nov

    SAMMYSAMY ADGHIRNI é correspondente da Folha em Caracas (Venezuela)

    Antipetistas alardeiam a ideia de que a reeleição de Dilma Rousseff abre caminho para o Brasil se tornar uma Venezuela. Isso é improvável. Apesar dos arroubos retóricos, Lula e Dilma nunca emularam o chavismo.

    Hugo Chávez trabalhou desde sua chegada ao poder, em 1999, para pulverizar tudo o que existia antes dele. A Venezuela mudou de Constituição e de nome, tornando-se república bolivariana.

    O PT nunca foi revolucionário, embora Lula defenda uma constituinte para reforma política.

    O petismo permeia órgãos federais, mas nada se compara ao aparelhamento à venezuelana.

    Chávez fechou o cerco à oposição até sufocar os que tentaram um golpe de Estado contra ele.

    O desajeitado Nicolás Maduro herdou essa bomba relógio institucional. Acuado por protestos neste ano, recorreu a bandos armados irregulares, os “coletivos”, para esmagá-los. Saldo: 42 mortos. Bem diferente de junho de 2013.

    Lula passou os dois mandatos construindo pontes –com a classe média, com o empresariado e com velhos rivais.

    Falta a Dilma essa veia conciliadora, mas ela manteve o arcabouço republicano e evita guerrear a oposição.

    Dilma, aliás, reflete a institucionalidade brasileira. Apesar de sua força política, Lula resistiu à tentação de atropelar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato consecutivo.

    Chávez não teve esses pudores. Enquanto o chavismo governa por decreto, o Planalto continua refém do Congresso.

    Se a economia brasileira preocupa, a do vizinho está em vias de colapso, com inflação a 63%, reservas minguantes e desabastecimento geral.

    Mercados temem um default no pagamento dos títulos da dívida venezuelana.

    Lula e Dilma não só deram continuidade a políticas econômicas dos governos anteriores como rejeitaram o modelo venezuelano de controle cambial, expropriação e subsídios em larga escala.

    No Brasil, acusações de corrupção são investigadas e passíveis de cadeia.

    Na Venezuela, é impensável ver presos governistas do nível equivalente a José Dirceu e José Genoino.

    O quarto mandato petista está sujeito a retrocessos. Menções à regulamentação da mídia não condizem com o que vem sendo demonstrado.

    Por ora, o que está mesmo dando ao Brasil ares de Venezuela não são os políticos nem o apertado placar presidencial, mas a banalização do ódio, propalada principalmente pelo eleitorado inconformado.

    A sociedade se deixou dominar pela intolerância. Redes sociais transbordam de aberração.

    A deslegitimação do “outro” já gera violência física. Sinais de um país dilacerado entre metades surdas e irreconciliáveis.

    O maior risco de Venezuelização vem de nós mesmos.

    Publicado por jagostinho @ 16:41



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