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  • 18nov

    ISTOÉ/por Izabelle Torres ([email protected])

    Ex-primeira-dama diz que resolveu escrever um livro sobre a vida ao lado do ex-presidente para mostrar sua versão da história.

    Na obra, afirma que o atual senador mandava dinheiro para o exterior e mantinha conta conjunta com o ex-tesoureiro PC Farias

    A ex-primeira-dama Rosane Malta foi por 22 anos a companheira de Fernando Collor e sua cúmplice em rituais de magia negra e reuniões secretas realizadas quase sempre na Casa da Dinda, em Brasília.

    Separada há nove anos por meio de um divórcio litigioso, ela guarda mágoas profundas do ex-marido. Ele se recusa a dividir com ela parte do patrimônio milionário acumulado durante o casamento e a pagar a pensão alimentícia de 30 salários minimos, estabelecida pela Justiça.

    Depois da separação, Rosane teve depressão e conseguiu superar o problema com a ajuda da igreja evangélica, cujos cultos e obras de caridade ocupam parte da sua programação semanal.

    Há dois anos, ela decidiu escrever a própria biografia, que se confunde com parte da história do governo Collor e do processo de impeachment sofrido por ele em 1992.

    Nas 220 páginas do livro que leva o título “Tudo que Vi e Vivi”, Rosane conta os bastidores de um casamento marcado por brigas e ambiciosos projetos de poder.

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    O QUE VI E VIVI
    “Queria ter tido filhos com Collor, mas ele sempre dizia que não era o momento”

    Ela detalha como o casal virou adepto de magia negra, e como Collor participava de rituais que incluíam sacríficio de animais e até o uso de fetos humanos.

    No livro, relata conversas que ouviu e assegura que o ex-marido mantinha contas bancárias na Suíça e uma conta conjunta com o tesoureiro de sua campanha, Paulo Cesar Farias.

    Embora não apresente documentos, Rosane diz que suas histórias não são uma narrativa de quem pretende denunciar o ex-marido ou criar fatos políticos.

    Segundo ela, a ideia é contar sobre sua vida. Isso inclui fatos que presenciou durante o casamento com o primeiro presidente do Brasil eleito por voto popular depois dos longos anos de ditadura.

    ISTOÉ – O livro “Tudo que Vi e Vivi”, é sua biografia, mas é narrada de forma a transformar o ex-presidente Collor no personagem central. Como decidiu contar essas histórias?

    ROSANE MALTA – As pessoas viam uma entrevista minha, mas era um pouco aqui, um pouco ali. Agora eu conto a história com começo, meio e fim.

    Demorei cerca de dois anos escrevendo. A ideia era que outra pessoa escrevesse para mim, mas depois decidi eu mesma contar com minhas palavras as coisas que vi e vivi naqueles anos.

    ISTOÉ – Collor deixou a Presidência há mais de 22 anos. Por que você acha que o assunto ainda interessa tanto?

    ROSANE MALTA – As pessoas têm um ponto de interrogação sobre o que aconteceu naquela época durante o governo do Fernando. Eu sei que muito se escreveu sobre aqueles anos.

    Algumas pessoas que fizeram relatos, como o jornalista Claudio Humberto, até participaram do processo de uma forma próxima mesmo.

    Mas, lendo o que os outros contam, eu vejo que alguns fatos são verdadeiros, mas em relação a outros tantos eu não concordo.

    Decidi então mostrar a minha versão da história. Colocar com os meus olhos, não apenas a questão do impeachment, mas também o que eu vivi com ele.

    ISTOÉ – Por que lançar o livro agora?

    ROSANE MALTA – Eu acho que um conjunto de fatores fez com que o momento fosse oportuno. Houve a eleição deste ano, por exemplo.

    As pessoas saíram às ruas para dizer que não estão contentes com o governo e passaram a exigir mudanças. O momento lembra um pouco aquele da eleição do Fernando.

    Quando ele foi candidato, era pós-regime militar. Foi logo depois de as pessoas também terem saído às ruas para mostrar e defender as eleições diretas e democráticas, para votar nos candidatos com alegria. Foi uma fase importante.

    ISTOÉ – O senador Fernando Collor acaba de ser reeleito. Houve pressão para que o livro fosse lançado antes ou durante a campanha, numa forma de influenciar o processo?

    ROSANE MALTA – Sim, recebi propostas para lançar antes da campanha. Mas eu não queria isso. Eu queria contar a minha história sem parecer que eu estava indo para um enfrentamento com ele.

    Sou verdadeira. Meu livro não tem o intuito de prejudicar ninguém, muito menos o Fernando. Se eu quisesse fazer isso, já teria feito. Afinal, já estamos separados há nove anos.

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    “Havia vários indícios de que Fernando Collor e Tereza realmente tinham um caso. Alguns gestos davam a entender que sim”

     

    ISTOÉ – Mas por que as pessoas acharam que o conteúdo do livro poderia prejudicá-lo?

    ROSANE MALTA – É porque as pessoas nunca ouviram a minha versão completa dessas histórias, sobre qual era o meu ponto de vista.

    Por exemplo, ninguém soube, até agora, o que eu realmente sabia e pensava sobre os boatos de um caso entre Fernando e a Tereza (Collor).

    Havia vários indícios de que ele e a Tereza realmente tinham um caso. Alguns gestos davam a entender que sim.

    ISTOÉ – O que sra. achou de ele ser considerado inocente pelo STF e ter se livrado de todos os processos referentes ao seu governo e ao processo que levou ao impeachment?

    ROSANE MALTA – A gente tem que acatar a decisão do Supremo. Quem sou eu para discutir? O que falo sempre é o que eu sabia.

    Por exemplo, o Fernando mantinha contas conjuntas com o PC Farias. O ex-presidente também tinha conta na Suíça.

    ISTOÉ – Mas o STF concluiu que era difícil provar as acusações contra ele. A sra. consegue mostrar alguma prova do que escreve no livro?

    ROSANE MALTA – Eu conto o que sei. É o meu ponto de vista. Minha ideia é mostrar a visão de quem estava perto e dentro de todo processo, como esposa, companheira.

    Acho que o brasileiro é curioso. Sempre houve uma cobrança grande para que eu contasse minha versão dessas histórias.

    ISTOÉ – No livro, a sra. detalha os rituais de magia negra dos quais vocês costumavam participar. Como era isso?

    ROSANE MALTA – Realmente decidi falar bastante sobre esse assunto. Eu vi, vivi e participei desses rituais.

    Não me isento disso não. Eu falo a verdade. Eu lembro que li várias entrevistas de ex-mulheres e muitas diziam que não sabiam o que estava acontecendo.

    Olha, eu sabia muitas coisas, mas outras eu não sabia que ele seria capaz de fazer.

    ISTOÉ – O que a surpreendeu, por exemplo?

    ROSANE MALTA – O Fernando fez magia negra com feto humano. Eu só fui saber depois. Eu jamais participaria de uma coisa dessa e por isso faziam escondido de mim.

    No livro, eu conto esse caso e ainda incluí testemunhos de quem viu como acontecia. Depois que descobri o que eles faziam, eu questionei o Fernando sobre como ele tinha coragem de fazer uma coisa daquelas. Fiquei assustada.

    ISTOÉ – Fez algo a respeito?

    ROSANE MALTA – É aquela coisa: a gente está junto, a gente ama, a gente termina perdoando. Fui educada para casar e para que o casamento durasse o resto da vida.

    Então passava por certas coisas e certas situações e relevava muito para segurar o relacionamento e manter o casamento. Depois de algum tempo, o respeito e o amor acabaram. Aí não dava mais jeito.

    ISTOÉ – Sua narrativa mostra mágoas do seu ex-marido. Foi intencional?

    ROSANE MALTA – A história do livro é de uma jovem que casa aos 19 anos com um político e abre mão da sua carreira e da própria vida para seguir o seu amor.

    No final, o que falo é que, embora eu tenha passado por tantas dificuldades, estou de pé. Espero que o livro sirva para dar um exemplo a mulheres com histórias parecidas e que não tiveram forças para continuar.

    Várias amigas entraram em depressão depois da separação e não saíram mais. Mas me pergunto como pode um ser humano viver durante 22 anos com uma pessoa, que dedicou a vida a ele, e no final não querer deixar absolutamente nada para ela?

    Nada do que construímos juntos ele acha que eu tenho direito. Como é que pode?

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    “Nem a pensão alimentícia Fernando (Collor) paga. Meus advogados dizem que eu sou um caso de exceção à regra, pois no Brasil quem não paga pensão vai preso”

     

    ISTOÉ – A sra. também fala da pensão que ele não paga, embora a Justiça tenha entendido ser devida.

    ROSANE MALTA – Sim, claro. Há nove anos eu luto pelos direitos que eu creio serem meus. Tudo que ele construiu durante o casamento era nosso e deveria ser dividido.

    Eu ganhei na Justiça o direito de receber uma pensão e eu não recebi nada. Ele recorreu, eu ganhei de novo. Mesmo assim eu não recebi nada. São nove anos de luta. Nem a pensão alimentícia ele paga.

    Meus advogados dizem que eu sou um caso de exceção à regra, pois no Brasil quem não paga pensão vai preso. Mas ele não paga, perdeu na Justiça e tudo continua como antes.

    Ele simplesmente não cumpre a decisão judicial. É incrível que isso aconteça. Eu via o Fernando fazendo maldades com outras pessoas e não esperava que fizesse um dia comigo.

    Meu terapeuta um dia disse uma coisa muito correta: eu subestimei a capacidade do inimigo. Foi isso mesmo que aconteceu.

    ISTOÉ – Hoje a sra. vive sozinha. Algum arrependimento?

    ROSANE MALTA – Depois da separação, eu perdi minha mãe, meus dois irmãos e meu pai em sequência. Sou uma pessoa que sofreu muito, mas segui em frente. E ainda tem o fato de não ter tido filhos…

    ISTOÉ – A sra. se arrepende de não ter tido filhos com o ex-presidente Fernando Collor?

    ROSANE MALTA – Com certeza. Não digo propriamente com ele, mas me arrependo de não ter pensado em mim. Mas ainda quero um filho. É um sonho e isso eu quero fazer.

    Eu detalho esse drama no livro. Fernando sempre dizia que aquele não era o momento. Ele falava que estava passando por essa ou por aquela fase e precisava de mim por inteiro.

    Era sempre o momento dele. Eu abdiquei de muita coisa. Mas estou me preparando para esse momento. Hoje eu estou solteira, mas continuo acreditando no amor e no casamento.

    Acredito que, na hora certa, Deus mandará uma pessoa especial. As coisas têm uma hora certa para acontecer. Foi assim com o livro.

    ISTOÉ – Como o ex-presidente reagiu ao seu livro?

    ROSANE MALTA – Eu não sei nada. Há nove anos que não falo com Fernando. Não tenho contato nenhum com ele desde a separação.

    ISTOÉ – Nas últimas eleições, partidos procuraram a sra. para convidá-la a entrar na política. Por que não aceitou?

    ROSANE MALTA – Fui convidada, mas achei que não era o momento. Não quis misturar o lançamento do livro com um momento de campanha eleitoral.

    Sei que as pessoas diriam que eu estava me aproveitando de uma coisa para promover a outra. Não era isso que eu queria. 

    Publicado por jagostinho @ 09:12



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