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  • 18fev

    * CLÓVIS ROSSI – FOLHA DE SÃO PAULO

    Pablo Milanés, 72 anos a completar domingo (22), é uma espécie de Chico Buarque de Holanda cubano. Criou, com Silvio Rodríguez, a Nova Trova Cubana e funcionou na maior parte do tempo como o grande trovador da revolução.

    Não o dissuadiu de cantá-la nem o fato de ter passado dois anos (1965/67) pelos campos de concentração da ilha, vítima do que chama de “repressão stalinista”.

    Agora, em entrevista publicada no sábado (14) por “El País”, o poeta se confessa vítima de uma fraude cometida por “uns dirigentes que pro­me­te­ram um amanhã me­lhor, com fe­li­ci­dade, com li­berda­des e com uma pros­pe­ri­dade que nun­ca che­gou em 50 anos”, que é, pouco mais ou menos, o tempo de vida da Revolução Cubana.

    Milanés é definitivo: “Cuba forma parte do fracasso do socialismo real”. Ou, posto de outra forma: é um escapismo achar que o socialismo caribenho é diferente do falecido comunismo da União Soviética e seus satélites. Faliram ambos.

    Já faz algum tempo que o trovador, autor de belíssimas canções, vinha ensaiando a crítica que agora faz ao regime que defendeu.

    O que surpreende é o fato de que intelectuais e artistas brasileiros, muitos dos quais sonharam sonhos embalados pelas letras de Milanés, não tenham ainda percebido o óbvio por ele exposto tão tranquila e cristalinamente.

    Ou perceberam e preferem silenciar, o que é até compreensível. Raras são as pessoas com a coragem de admitir que passaram meio século equivocadas.

    Ou, o que seria ainda pior, calam para não perder a boquinha dos convites para viajar a Cuba e louvar depois, nos seus círculos estreitos, o que era revolução e virou apenas mais uma ditadura latino-americana.

    Não sei o que esse pessoal teme. Milanés critica o regime cubano sem deixar de “sentir-se revolucionário”.

    Explica seu fascínio pela revolução com uma descrição que muitíssima gente de sua geração também faria:

    “A ori­gem [do fascínio] es­tá no que sig­ni­fi­cou Cu­ba em 1959 pa­ra o mun­do. Eu tinha então 15 anos e, quando me aprofundei na realidade social da América La­ti­na, me con­ver­ti em um revo­lu­cio­nário. (…) Os idea­is que pro­fes­sáva­mos eram os mais pu­ros que se po­diam ter naque­la épo­ca”.

    Cuba significou à época a liberdade após uma tirania obscena e a possibilidade de cicatrizar as “veias abertas da América Latina”, para usar o clássico de Eduardo Galeano.

    Se Cuba foi uma fraude, Milanés põe outro idealista no altar: “Para mim, o maior exemplo de revolucionário na América é José Mujica [presidente do Uruguai], preso durante 14 anos e, depois, um homem sem rancor, capaz de criar um Estado livre, soberano, não dependente e próspero”.

    Mujica tem realmente uma certa aura, mas o seu Uruguai está longe de representar a utopia que Cuba parecia nos anos 60.

    Talvez por isso, uma ampla fatia da esquerda prefira não ver ou calar sobre a transformação da ilha caribenha em distopia.

    Milanés, o poeta, ao contrário, sente que já não pode dedicar versos a uma Cuba que matou a poesia.

    clóvis rossi* CLÓVIS ROSSI é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. É autor de obras como ‘Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo’ e ‘O Que é Jornalismo’.

    Publicado por jagostinho @ 15:37



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