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  • 24fev

    * ANTONIO PRATA/ FOLHA DE SÃO PAULO

    Um dos inúmeros inconvenientes da morte é termos que decidir o que será feito conosco –ou com essas sobras da festa que, por falta de nome melhor, chamamos de “corpo”. Enterra? Crema? Doa pra faculdade de medicina estuprar, opa, quero dizer, estudar?

    Por um lado, a cremação me parece, digamos, mais higiênica. Pula-se toda a parte da lama, dos vermes, dos ossos e vamos direto ao pó para o qual, no fim das contas, retornaríamos.

    Resta ainda, porém, uma questão que não pode ser varrida para debaixo do tapete: o que fazer com as cinzas? Nestes meus 37 anos de perambulações sobre a Terra, não encontrei nenhum lugar onde me sentisse tão à vontade que dissesse: acho que eu poderia ficar aqui para sempre.

    Moro numa casa pros lados de Cotia, com um belo jardim, onde minha filha aprendeu a andar e para o qual olho todas as tardes, enquanto trabalho.

    Talvez, caso viva aqui muitos anos, crie um vínculo forte o suficiente para querer me misturar às raízes da grama. Por enquanto, contudo, a ideia de passar a eternidade na altura do km 26,5 da Raposo não me parece das mais atraentes.

    Até porque é impossível prever se um ano depois de eu bater as botas esse condomínio não vai ser derrubado, o jardim concretado e transformado num estacionamento.

    Ou numa igreja evangélica. Ou no estacionamento de uma igreja evangélica. (Haverá fim pior do que ficar para todo o sempre entre a cruz e a estrada?).

    O mar é uma escolha poética. “Deus ao mar o perigo e o abismo deu/ Mas nele é que espelhou o céu”, escreveu Fernando Pessoa. Não só nele espelhou o céu como nele fecundou a vida.

    Foi no caldo primordial dos oceanos que a matéria criou vontade própria e saiu por aí copulando, filosofando e coçando o ouvido com o mindinho.

    Mas por acaso sou navegante português? Sou surfista? Sou poeta? Nada, morei a vida toda na cidade: imagina eu lá longe, a cento e tantos quilômetros de todo mundo que eu conheço, misturado ao sargaço, aos baiacus inchados e às garrafas PET na areia?

    Não, não me agrada.

    Nem tanto ao mar nem tanto à terra: que tal ao céu? Por US$ 4.995, a empresa Celestis pode me pôr em órbita. Por US$ 12.500, me polvilham na Lua.

    Vixe, só de pensar na solidão cósmica já sinto saudades das garrafas PET. Melhor ficar por aqui mesmo. Mas como?

    Numa urna, em cima da lareira de algum descendente? Uma breve pesquisa na internet traz opções menos entediantes: as cinzas podem virar a areia de uma ampulheta, podem ser prensadas num vinil, transformadas em vidro, em jogo de lápis, em diamante. 

    Diamante é interessante: essa coisa volumosa, desengonçada e fugaz que é um ser humano condensada numa pedrinha harmoniosa e perene.

    Mas e o risco de ser roubado? De ser penhorado por um tataraneto bebum? Imagina acabar no mindinho gordo do dono da loja de penhores, numa tarde abafada de verão, coçando um ouvido peludo? Não, não, nada de diamante.

    A melhor saída (literalmente) que encontrei em minha lúgubre pesquisa foi a escolhida pelo jornalista americano Hunter Thompson.

    As cinzas são transformadas em fogos de artifício, acende-se um pavio e cabum!

    Chuva de cores no céu, o que sobra é levado pelo vento e um abraço pra quem fica.

    antonio prata* ANTONIO PRATA é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles ‘Meio Intelectual, Meio de Esquerda’ (editora 34).



    Publicado por jagostinho @ 13:51



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