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  • 25mar

    FOLHA.COM – DEPOIMENTO AANDERSON FIGO DE BERLIM

    Minha História: Cubano relembra prisão e tortura na Alemanha Oriental

     

    Jorge Luís García Vázquez foi enviado à Alemanha Oriental em 1980 para ser intérprete de cidadãos cubanos que trabalhavam no país. O serviço de segurança de Cuba tentou recrutá-lo como informante.

    Em um de seus trabalhos, Vázquez acompanhou um músico cubano em uma turnê.

    A intenção do artista era não retornar a seu país de origem, e Vázquez o ajudou a contatar diplomatas dos EUA -mas as ligações foram interceptadas, e o tradutor foi preso.

    Leia abaixo o seu depoimento.

    *

    Stephan Horn/Arquivo pessoal
    O tradutor cubano Jorge Luís García Vázquez, em foto de 2014
    O tradutor cubano Jorge Vázquez, em foto recente; ele ficou preso na Alemanha Oriental nos anos 80

     

    Fui detido em março de 1987 e colocado no núcleo de detenção central da Stasi [polícia secreta da Alemanha Oriental], em Berlim-Hohenschönhausen.

    Tentei ajudar o músico cubano a escapar porque pensei que posteriormente eu poderia utilizar esses contatos na embaixada americana com o mesmo objetivo, fugir de Cuba.

    A ideia era entregar aos EUA informações que poderiam ser de seu interesse.

    As minhas chamadas telefônicas foram anônimas, mas eu sabia que isso envolvia um alto risco.

    Eu esperava me encontrar com diplomatas americanos quando fui pego em Berlim, em um bar.

    Já o músico cubano conseguiu fugir em uma escala técnica do avião que o levava de volta a Cuba, em Gander, no Canadá.

    Quem havia me enviado à Alemanha Oriental foi a empresa estatal cubana Cubatecnica.

    E o serviço de segurança do Estado de Cuba desejava obter informações políticas sobre os cubanos na DDR [nome oficial da Alemanha Oriental], por isso tentou me recrutar como informante.

    Quando fui preso, passei pelo mesmo ritual que os demais capturados pela Stasi.

    Tive que deixar todos os meus objetos pessoais, inclusive as roupas, em uma sala, e depois fui submetido a uma revista íntima onde inspecionaram todos os orifícios do meu corpo.

    Em seguida, fui fotografado e recebi um número. Foi quando eu passei a ser o prisioneiro 33.

    A “tortura branca” começou logo depois.

    Digo “tortura branca” porque existem diversas formas de torturas físicas conhecidas, mas em Hohenschönhausen havia prisioneiros políticos, que demandavam principalmente um cansaço psicológico para fornecerem mais informações ao regime.

    Começava pela própria estrutura da prisão, que era no subterrâneo, sem entrada de luz solar.

    Os presos passavam por isolamento e privação de sono. A cada 10 ou 15 minutos éramos acordados para provocar acúmulo de cansaço e nos deixar desorientados.

    Depois éramos submetidos a longos interrogatórios. De 1961 a 1989 estiveram quase 10 mil presos políticos em Berlim-Hohenschönhausen.

    Depois de horas seguidas de interrogatórios, tínhamos que voltar para as celas de forma separada.

    Não queriam que um preso tivesse contato com o outro. Para isso, usavam um sistema de luzes vermelhas.

    LUZ VERMELHA

    Quando uma luz vermelha estava acesa, o prisioneiro, que andava algemado na frente do guarda, tinha que se encostar na parede e ficar olhando para frente até que o outro já tivesse passado.

    O pouco contato também servia para a relação entre os policiais e os prisioneiros.

    Eles não sabiam nosso nome ou quem éramos, e chamavam os prisioneiros apenas pelos seus respectivos números.

    No meu arquivo de interrogatórios estava o nome de “Kubaner” (cubano, em alemão).

    Em Cuba, minha família não sabia o que estava acontecendo comigo.

    Após alguns dias preso em Berlim-Hohenschönhausen e muitas horas de interrogação por parte da Stasi, chegaram à conclusão que meu caso era algo de responsabilidade do governo cubano, não da DDR.

    Por isso, fui deportado a Cuba pela polícia do meu país.

    Lá em Cuba, fui interrogado por vários dias, mas acabaram me colocando em liberdade, sendo vigiado de perto pelo departamento de inteligência durante cinco anos.

    Nesse período, não tinha permissão para deixar o país e me impuseram limitações profissionais.

    Saí de Cuba legalmente em 1992. Não solicitei asilo político em qualquer país, mas não viajo mais a Cuba enquanto existir a ditadura naquele lugar.

    Em Berlim desde então, me tornei ativista pelos direitos humanos e representante do MCL (Movimiento Cristiano Liberación) na Alemanha.

    Hoje, tenho cidadania alemã, mas minha família continua em Cuba.

    Vou continuar a ajudar os cubanos que lutam pacificamente pela liberdade e pela democracia em Cuba.

    Devemos aprender com a história.

    Em meus últimos dias de vida, pretendo estar no lugar que Deus pensa que posso ser útil.



    Publicado por jagostinho @ 17:31



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