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  • 08ago

    ISTOÉ – Sérgio Pardellas ([email protected])

     

    O fim da era PT

     

    A nova prisão de Dirceu, num esquema de enriquecimento pessoal, transforma o partido num símbolo da corrupção e abrevia o adeus da legenda que prometeu mudar a maneira de fazer política no país, mas decepcionou os brasileiros

    A segunda prisão de José Dirceu, ocorrida na segunda-feira 3, não constituiu uma surpresa para ninguém.

    Nem para ele. O ex-ministro, enredado no mensalão e, agora também, no Petrolão, já se encontrava na alça de mira da Lava Jato desde a prisão de Renato Duque, ex-diretor e seu apadrinhado na Petrobras.

    A delação do lobista Milton Pascowitch, relacionando o petista ao recebimento de propina pessoal travestida de consultoria, foi apenas a pá de cal.

    Apesar de não ter sido algo inesperado, o novo recolhimento de Dirceu ao cárcere teve um significado emblemático: cravou no partido a marca indelével da corrupção, decretando praticamente o fim da era petista no poder.

    Mesmo com a – cada vez mais improvável sobrevivência da presidente Dilma Rousseff, fica difícil vislumbrar um horizonte para o PT sem haver uma reformulação radical na legenda.

    Isso se o partido não precisar mudar de nome mais adiante.

    “O cenário é distinto daquele do mensalão. Nem a melhora da economia salva o PT”, resignou-se o ex-presidente Lula em reunião com petistas na última semana.

    O Petrolão mostrou de maneira inequívoca que Dirceu e o PT criaram uma espécie de toque de Midas ao avesso: quase tudo em que o partido meteu a mão teve a sujeira da corrupção.

    Em vez de transformado em ouro, cada órgão administrado pela legenda se deteriorou. Saqueada pelo PT, segundo os investigadores da Lava Jato, a Petrobras já valeu R$ 500 bilhões em 2008.

    Hoje seu valor de mercado é de R$ 100 bilhões. Outras estatais como a Eletrobrás, aparelhadas sem piedade pelo partido, trilham semelhante caminho.

    Por práticas nada republicanas, foram parar na cadeia, antes de Dirceu, outras figuras de proa da legenda: o ex-presidente da sigla José Genoíno; o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha; o ex-deputado e líder da bancada, Anré Vargas;; e os ex-tesoureiros Delúbio Soares e João Vaccari Neto.

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    ACABOU-SE
    A segunda prisão de José Dirceu enterra o projeto petista

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    A nova prisão de Dirceu trouxe, porém, outro elemento agravante – e, aí sim, decepcionante até para seus mais ferrenhos defensores, que ainda permaneciam iludidos, a despeito das abundantes e variadas evidências de desvios de dinheiro público.

    O petista, considerado “o capitão do time” por Lula quando era ministro da Casa Civil, foi apanhado roubando para enriquecimento pessoal e não mais em nome de um “projeto de País” ou de “poder”, como alegava o PT até então – como se isso já fosse algo banal.

    Ou seja, se já era abominável o discurso petista segundo o qual os fins justificavam os meios, mais inaceitável ainda é agora quando se descobre que tanto os meios quanto os fins eram indecentes.

    Ao decretar a prisão preventiva de Dirceu, o juiz Sérgio Moro disse que o petista recebia propinas desde 2003, quando assumiu a Casa Civil.

    Para Moro, as provas reforçam os indícios de “profissionalismo e habitualidade na prática do crime” e caracterizam “acentuada conduta de desprezo não só à lei e à coisa pública, mas igualmente à Justiça criminal e à Suprema Corte”.

    O procurador Carlos Fernando Lima, integrante da força-tarefa da Lava Jato resumiu: “A responsabilidade de José Dirceu, aqui, é como beneficiário de maneira pessoal, não mais de maneira partidária, enriquecendo pessoalmente”.

    Segundo a Lava Jato, os valores eram pagos a Dirceu por meio de falsos contratos de prestação de serviços da JD Consultoria. Às vezes em dinheiro vivo.

    Houve casos de ressarcimento de despesas pessoais. Entre 2007 e 2014, as propinas destinadas a Dirceu somavam R$ 90 milhões.

    Parte do dinheiro – cerca de R$ 1 milhão – serviu para reformar um apartamento do irmão do ex-ministro, Luiz Eduardo de Oliveira Silva, na Vila Mariana, Zona Oeste de São Paulo.

    Outros R$ 1,3 milhão pagaram a arquiteta responsável pela reforma da casa de Dirceu em Vinhedo (SP).

    O delator Milton Pascowitch ainda contou ter bancado para o petista metade de um jatinho Cessna 560 XL, avaliado em R$ 2,4 milhões.

    “O PT já está todo maculado. Isso é uma pá de terra”, avaliou o deputado federal Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).

    “O PT está afetado no limite máximo, pelo que algumas pessoas da sigla realizaram, no mensalão e no caso da Petrobras. O partido chegou ao fim de um ciclo”, reconheceu o ex-governador petista Tarso Genro, eterno candidato a promover a reformulação da legenda.

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    Não à toa, a recepção a Dirceu, na carceragem da PF em Curitiba, foi completamente distinta daquela exibida no mensalão.

    Em vez dos aplausos calorosos da militância, vaias, foguetórios e gritos de ladrão.

    Na primeira condenação, Dirceu, de punhos erguidos, foi recebido pelos camaradas ao coro de “guerreiro do povo brasileiro”.

    Havia, entre os petistas, a sensação de que a sentença inicial de Joaquim Barbosa, relator do mensalão, fora dura demais ao apontá-lo.

    Semana passada, nem mesmo o PT teve a coragem de defendê-lo. Em nota, sem mencionar o líder de outrora, o partido alegou somente a legalidade das operações financeiras da legenda.

    “As acusações contra ele são de caráter pessoal”, lavou as mãos o presidente do PT, Rui Falcão.

    Claro, trata-se de mais uma estratégia do partido na tentativa de não se contaminar ainda mais com a prisão do seu ícone.

    Em vão — é impossível dissociá-los. A trajetória política e de vida de Dirceu se confunde com a do PT.

    Foi Dirceu quem, ao assumir o partido em 1995, pavimentou a ascensão de Lula e do PT ao poder, em 2002.

    Depois, tornou-se o homem forte de Lula na Presidência até desabar ladeira abaixo enrolado numa fieria de escândalos.

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    O que se conhece agora ainda é mais grave e, por isso, fere de morte a legenda um dia depositária dos sonhos de milhares e milhares de brasileiros que acreditaram na esperança vendida por Lula e companheiros.

    O esquema de corrupção e pagamento de propina começou no primeiro mandato lulista e perdurou até 2015, segundo a Lava Jato.

    Graças a uma simples descoberta, durante uma investigação de lavagem de dinheiro, a de que o doleiro Alberto Yousseff havia doado um carro importado a um diretor da Petrobras, no caso, Paulo Roberto Costa, o fio de um imenso novelo foi puxado e conclui-se sobre a confluência dos dois escândalos, o mensalão e o Petrolão.

    Ambos gestados, segundo os investigadores, a partir da Casa Civil de Lula. Agora, procuradores e agentes federais dedicam-se a buscar evidências que possibilitem destrinchar a cadeia de comando até o topo.

    Entre os investigadores, comentava-se na semana passada a possibilidade de o ex-presidente ser convocado a depor para prestar esclarecimentos, antes de uma eventual prisão, o que já seria péssimo para sua imagem.

    Para blindar Lula, há no Planalto quem defenda que ele assuma um ministério de Dilma.

    Neste caso, o ex-presidente ganharia foro privilegiado e, em caso de denúncia contra ele, o processo seria remetido ao STF.

    A alternativa, porém, dividia o governo até o fim da semana, pois enfraqueceria ainda mais a presidente.

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    Num último esforço para tentar limpar a barra da legenda, o PT foi à televisão na noite quinta-feira 6.

    Ao contrário do imaginado, no entanto, o programa só atiçou ainda mais a indignação de setores do eleitorado refratários ao PT – hoje a expressiva maioria da população.

    Recheado de cinismo, o filmete petista, ancorado pelo militante e abnegado petista José de Abreu, amigo pessoal de Zé Dirceu, chegou ao cúmulo de dizer que o País vivia “problemas passageiros na economia”.

    Dono dos piores índices econômicos em quinze anos, o partido teve a desfaçatez de se comparar ao que chamou de melhor período das gestões anteriores.

    “Nosso pior momento ainda é melhor do que o melhor momento dos governos passados”, diz, desta vez, na voz de Lula.

    Como na campanha, o PT ainda atentou contra o bom senso e a inteligência da população ao voltar a prometer a retomada do crescimento, com preços em baixa e emprego em alta, além de saúde e educação de qualidade.

    Resultado: consumou-se a reprise do sonoro panelaço a ecoar pelas principais cidades do País, gesto ilustrativo da debacle do partido.

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    Foto: Agência Brasil, Geraldo Magela/Agência Senado; José Cruz/Agência Senado; Jefferson Rudy/Agência Senado; Estadão Conteúdo; André Coelho/Agencia O Globo; AFP PHOTO/HEULER ANDREY; Pedro Ladeira/Folhapress; Ernesto Rodrgiues/Folhapress 

    Publicado por jagostinho @ 09:12



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