• 19jan

    INVISÍVEL 3

    O que para ele era uma piada quando chegou aos 50 – “queria descobrir quem disse que a vida começa aos 40 ! Grande mentiroso !” – começou a se transformar em tragédia depois que passou dos 60.

    Quando jovem, podia se dizer que não era, fisicamente, um galã. Mas, seus belos olhos azuis, papo descontraído e sorriso fácil, encantou muitas garotas, naquela fase da vida.

    Teve muitas namoradas. Lembra de todas com muita ternura.

    Até por que no seu tempo de juventude, apesar da Jovem Guarda (“é uma brasa, mora!”) ser o estilo da época – cabelos compridos, botinha de camurça e calça boca de sino – transar com a namorada, “ficar” ou amizade colorida, nem pensar.

    Nada mais do que alguns amassos, apalpadas e beijos no cinema ou sentir o cheiro e contornos frontais da amada numa dança, bem no meio do salão, para o agarradinho não dar muito na vista.

    Estes já eram assuntos para uma semana inteira, com os amigos do colégio. 

    Quando já formado, quase chegando aos 30, estava no limite: ou casava naquele momento ou passava da vez e ficaria solteirão.

    Mas, como seu grande sonho era ter filhos e se imaginava com eles no colo, decidiu entrar para o rol dos homens sérios com a namorada da vez.

    Afinal, já não era sem tempo, pois se conheciam há sete longos anos.

    Casamento, como se diz, é bom até o sétimo ano. Depois, tudo é uma questão de convivência e acomodação.

    Hoje, ele tem certeza de que esta é uma afirmação para lá de verdadeira. Mas, a emoção de ser pai é insuperável.

    Duas filhas e um filho, este quando, inclusive, já era quarentão. Hoje, todos formados, sem grandes vícios e saudáveis.

    Correu o Brasil inteiro e boa parte do mundo por conta de sua profissão. Mas, pagou um preço alto por isso.

    Pois, hoje, tardiamente, reconhece que não curtiu como devia a infância e adolescência dos filhos que tanto quis.

    Não foi um pai presente. Erro grave, mas sem chance de ser corrigido. Pois, o tempo é implacável, cruel e passa rápido.

    Rumando celeremente para os 73, não vive mais com a mulher e nem com os filhos.

    Passa seu tempo, solitário e aposentado, num pequeno apartamento.

    Assim aconteceu, pois, filho único, teve que cuidar de sua velha e generosa mãe.

    Mas, o Alzheimer obrigou-o a interná-la num recanto de idosos, onde a visitava semanalmente e que faleceu há dois anos.

    E, agora, nada como a solidão e o silêncio da madrugada para que reflexões e questionamentos surjam a todo instante.

    Só não fala sozinho porque a Leka, sua gatinha querida, ouve-o com uma atenção notável. Fiel companheira de todas as horas. Seu grande tesouro e guardiã atenta.

    Instado por pessoas de seu restrito entorno, de que deveria procurar uma companheira para tornar a vida menos pesada e mais agradável, não recusa a ideia. Mas, há uma barreira intransponível.

    Aliás, obstáculo construído por ele mesmo, pois não admite alguém ao seu lado com idade próxima à dele.

    Sua tese baseia-se em argumentos bem próprios de quem admite que envelheceu, mas insiste em não aceitar.

    Sonha, pois o sonho é livre e não custa nada, que mereceria uma mulher jovem ao seu lado. Justifica esta incomum união como se fora uma troca.

    Ele teria o frescor da juventude e a pele macia como pétalas de rosas de uma garota e oferecer-lhe-ia conforto, segurança e, principalmente, a sabedoria de quem já percorreu todos os tipos de estrada.

    E, finaliza sua complicada equação utópica, garantindo que, numa relação como essa, iria prevalecer muito mais a sensualidade e bem menos a sexualidade.

    Enquanto não encontra a princesa de seus sonhos, e sabe que é quase impossível achar, relata aos seus poucos amigos a sua outra tese: Que homem com a sua idade se torna invisível aos olhos de jovens mulheres.

    Se não se cuidar e sair da frente, elas passam por cima dele.

    Seu maior ídolo, na juventude, e até hoje, é o cantor Roberto Carlos.

    Ao embalo de músicas dele e do Erasmo, viveu suas grandes aventuras amorosas.

    Uma canção diferente para cada amor vivido.

    Tanto Roberto como Erasmo, também, já, passaram dos 70 anos.

    Como fizeram músicas para quase todos os tipos de situações da vida, ele aguarda uma, que eles ainda não compuseram.

    E que poderia se chamar: O HOMEM INVISÍVEL.

  • 03nov

    CARTA 333

     

    Affonso Romano de Sant’ana

    Amigos, nada mudou em essência.

    Os salários mal dão para os gastos, as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis, embora o avanço da medicina.

    Volta e meia um vizinho tomba morto por questão de amor.

    Há filmes interessantes, é verdade, e como sempre, mulheres portentosas nos seduzem com suas bocas e pernas, mas em matéria de amor não inventamos nenhuma posição nova.

    Alguns cosmonautas ficam no espaço seis meses ou mais, testando a engrenagem e a solidão.

    Em cada olimpíada há recordes previstos e nos países, avanços e recuos sociais.

    Mas nenhum pássaro mudou seu canto com a modernidade.

    Reencenamos as mesmas tragédias gregas, relemos o Quixote, e a primavera chega pontualmente cada ano.

    Alguns hábitos, rios e florestas se perderam.

    Ninguém mais coloca cadeiras na calçada ou toma a fresca da tarde, mas temos máquinas velocíssimas que nos dispensam de pensar.

    Sobre o desaparecimento dos dinossauros e a formação das galáxias não avançamos nada.

    Roupas vão e voltam com as modas.

    Governos fortes caem, outros se levantam, países se dividem e as formigas e abelhas continuam fiéis ao seu trabalho.

    Nada mudou em essência.

    Cantamos parabéns nas festas, discutimos futebol na esquina, morremos em estúpidos desastres e volta e meia um de nós olha o céu quando estrelado com o mesmo pasmo das cavernas.

    E cada geração , insolente, continua a achar que vive no ápice da história.

  • 24fev

    * ANTONIO PRATA/ FOLHA DE SÃO PAULO

    Um dos inúmeros inconvenientes da morte é termos que decidir o que será feito conosco –ou com essas sobras da festa que, por falta de nome melhor, chamamos de “corpo”. Enterra? Crema? Doa pra faculdade de medicina estuprar, opa, quero dizer, estudar?

    Por um lado, a cremação me parece, digamos, mais higiênica. Pula-se toda a parte da lama, dos vermes, dos ossos e vamos direto ao pó para o qual, no fim das contas, retornaríamos.

    Resta ainda, porém, uma questão que não pode ser varrida para debaixo do tapete: o que fazer com as cinzas? Nestes meus 37 anos de perambulações sobre a Terra, não encontrei nenhum lugar onde me sentisse tão à vontade que dissesse: acho que eu poderia ficar aqui para sempre.

    Moro numa casa pros lados de Cotia, com um belo jardim, onde minha filha aprendeu a andar e para o qual olho todas as tardes, enquanto trabalho.

    Talvez, caso viva aqui muitos anos, crie um vínculo forte o suficiente para querer me misturar às raízes da grama. Por enquanto, contudo, a ideia de passar a eternidade na altura do km 26,5 da Raposo não me parece das mais atraentes.

    Até porque é impossível prever se um ano depois de eu bater as botas esse condomínio não vai ser derrubado, o jardim concretado e transformado num estacionamento.

    Ou numa igreja evangélica. Ou no estacionamento de uma igreja evangélica. (Haverá fim pior do que ficar para todo o sempre entre a cruz e a estrada?).

    O mar é uma escolha poética. “Deus ao mar o perigo e o abismo deu/ Mas nele é que espelhou o céu”, escreveu Fernando Pessoa. Não só nele espelhou o céu como nele fecundou a vida.

    Foi no caldo primordial dos oceanos que a matéria criou vontade própria e saiu por aí copulando, filosofando e coçando o ouvido com o mindinho.

    Mas por acaso sou navegante português? Sou surfista? Sou poeta? Nada, morei a vida toda na cidade: imagina eu lá longe, a cento e tantos quilômetros de todo mundo que eu conheço, misturado ao sargaço, aos baiacus inchados e às garrafas PET na areia?

    Não, não me agrada.

    Nem tanto ao mar nem tanto à terra: que tal ao céu? Por US$ 4.995, a empresa Celestis pode me pôr em órbita. Por US$ 12.500, me polvilham na Lua.

    Vixe, só de pensar na solidão cósmica já sinto saudades das garrafas PET. Melhor ficar por aqui mesmo. Mas como?

    Numa urna, em cima da lareira de algum descendente? Uma breve pesquisa na internet traz opções menos entediantes: as cinzas podem virar a areia de uma ampulheta, podem ser prensadas num vinil, transformadas em vidro, em jogo de lápis, em diamante. 

    Diamante é interessante: essa coisa volumosa, desengonçada e fugaz que é um ser humano condensada numa pedrinha harmoniosa e perene.

    Mas e o risco de ser roubado? De ser penhorado por um tataraneto bebum? Imagina acabar no mindinho gordo do dono da loja de penhores, numa tarde abafada de verão, coçando um ouvido peludo? Não, não, nada de diamante.

    A melhor saída (literalmente) que encontrei em minha lúgubre pesquisa foi a escolhida pelo jornalista americano Hunter Thompson.

    As cinzas são transformadas em fogos de artifício, acende-se um pavio e cabum!

    Chuva de cores no céu, o que sobra é levado pelo vento e um abraço pra quem fica.

    antonio prata* ANTONIO PRATA é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles ‘Meio Intelectual, Meio de Esquerda’ (editora 34).

  • 22fev

    remédios

    Às vezes, em meus sonhos, vejo um lindo jardim…

    É um jardim diferente, que transcende as paredes deste quartinho e se abre em caminhos floridos que levam a outra realidade, onde braços afetuosos me esperam com amor e alegria…

    Mas, quando eu acordo, é a minha realidade que eu vejo… que eu vivo… que eu sinto…

    A solidão, aquela sensação de vazio, de nada, de tanto faz, de tristeza e desamparo.

    Solidão. Uma velha amiga. Afinal, já passei por tantas coisas e a única que permaneceu comigo foi ela.

    Aos poucos essa amizade está tornando-se difícil. Eu não quero mais sentir a solidão.

    Mas ela continua a insistir sobre o quanto sua companhia é importante.

    A equação de dois tornou-se uma equação de três elementos: eu, a solidão e os medicamentos.

    Eu olho para eles e a memória relembra de muitos filmes em que as pessoas pegam seus frascos laranjados e tomam inúmeros comprimidos para acabar com aquele sentimento de tristeza e vazio.

    E eu sei que tomando muitos comprimidos como nos filmes, mesmo assim, nada acontece.

    O vazio continua vazio, a tristeza é anestesiada, mas sem lágrimas, só dor mesmo.

    Acho que sou forte e que meus sentimentos serão sublimados assim que o primeiro comprimido começar a surtir efeito.

    Acordo com a solidão dizendo-me bom dia. 

    Pois, então, que assim seja.

    Mas, baixinho sussurro: Ser Supremo, deixa-me ir ?

  • 14dez

    walcyrcarrascoheader_620x70

    REVISTA ÉPOCA

    O Natal é hipócrita. Podem me atirar pedras. Reafirmo. É uma das duas datas mais responsáveis por mentiras. A outra é o aniversário, pelo qual acabo de passar. Fiz 63 anos. Nada pior do que ouvir frases consoladoras do tipo:

    – Poxa, mas você não parece.

    Como se aparentar a própria idade fosse horrível. E daí se parecer 60, 70, 80? Deveria parecer 20? Nem com toda plástica e Botox do mundo!

    No máximo, ficaria com a cara paralisada e os olhos puxados, à oriental, como acontece com quem exagera em plásticas. Para quê? Para parecer alguém que não quer aparentar a idade que tem. Mas que aparenta. Deu para entender?É como se diz por aí:

    – Ixi, ela está com o rosto todo trabalhado.

    Trabalhado quer dizer: reformado. Se pudessem, alguns plásticos ou dermatologistas passariam massa corrida e lixa industrial para garantir o resultado. Ainda não surgiu nenhum produto à altura. Ainda.

    Meu aniversário é próximo do Natal, portanto, em dezembro, vivo um festival de hipocrisia. Principalmente em relação a presentes.

    Não há nada mais difícil do que surpreender alguém com algo de que realmente goste. A não ser que a gente dê, por exemplo, um Land Rover zero.

    Ou um brilhante do tamanho de uma dentadura. Surpreender é difícil. Se alguém anuncia o presente desejado, também não tem graça.

    Como pedir: cuecas, meias, CD do Leonardo, um pacote de ração para cães para economizar nos gastos, um mês de academia. Pior, fazer cara de gentil e dizer:

    – Acho ótimo você dizer o que quer, assim não erro.

    Natal é teste do Enem, que a gente não pode errar? As pessoas espertas confessam:

    – Meu maior sonho é conhecer o Caribe!

    Finjo que não entendo e digo:

    – Sabe que eu não? O Brasil tem praias tão lindas. Já foi para Santos?

    Em seguida, começo a falar das belezas de Santos, enquanto o outro me encara com ódio. Santos é uma cidade adorável no litoral de São Paulo, onde muitos aposentados adoram viver.

    Não é conhecida pela beleza das praias, digamos assim.

    Confesse. Nunca mentiu no Natal? Nem quando ganhou algum horror? E falou:

    – É exatamente o que eu precisava!

    O pior é quando esse horror é objeto de decoração. Quem deu, cada vez que vai em casa fica olhando para ver onde pus.

    Estaria atirado no fundo de algum rio, se não fosse a fiscalização. Então escondo.

    Cada vez que vou receber a visita, tenho de lembrar:

    – Onde estão aqueles dois coelhinhos de porcelana? Tenho de pôr na mesa da sala.

    A campainha toca, e eu ainda correndo atrás dos coelhinhos. Ser gentil não é uma arte, também pode ser um martírio.

    Há pessoas que simplesmente ganham o presente de Natal – isso acontece muito com amigos secretos –, agradecem e choram de emoção.

    Depois embrulham, botam no armário e aguardam o próximo Natal, para reciclar. Isso costuma dar tão errado que nem tenho palavras.

    A mãe de um amigo devolveu, dois anos depois, o perfume que a própria irmã dele tinha dado, ainda embrulhado no mesmo papel de presente.

    Mãe e filha acabaram aos gritos, enquanto as pessoas se esforçavam para cantar “Jingle bells”. Eu mesmo reciclei um presente, não digo quando nem onde, por discrição.

    Só sei que era uma bolsa linda, masculina, que o contemplado jamais compraria. Nem eu, aliás. Era cara. Sou do tipo que usa sempre o mesmo relógio, a mesma bolsa, até se desfazerem. Resolvi passar adiante.

    Embrulhei num lindo papel de presente, botei fitas. Na hora do amigo secreto, quando o contemplado abriu o presente emocionado… bem em cima, exatamente em cima, estava o cartão de quem me dera, endereçado a mim mesmo.

    Agora me expliquem: como não vi o cartão quando embrulhei? Como, como? Parece que a tal Lei de Murphy é inexorável.

    Quando é para dar errado, dá errado. Mas não deu. Ele ficou abismado contemplando a pasta em couro preto. Tanto como eu, contemplando o cartão.

    Aí meus dedos se moveram mais rápidos que as patinhas de uma aranha. Ainda não sei explicar como consegui, como ninguém viu. Empalmei o cartão e fugi para o toalete.

    Nem tive coragem de jogar fora. Rasguei e engoli. Na volta, o presenteado ainda chorava de emoção com minha generosidade. Chorei junto.

    Já me preparo para as novas mentiras, inevitáveis no Natal. Neste ano, a família quer fazer em minha casa.

    Vamos combinar: dar presentes é muito difícil. Uma coisa certamente ninguém espera receber: sinceridade.

    Se é para mentir, que venha o Natal.

    Já estou preparado.

« Entradas anteriores   



Publicidade


      Red Apple Cosméticos

      CPV - Centro Paranaense da Visão

      Hospital Cardiológico Costantini

      Hotel Carimã

Twitter @blogdojota