Travestido como um certo “plano de economia popular”, o aumento da passagem de ônibus para menos R$ 4,50 após dois anos de congelamento em R$ 4,25 pode ter dado a sensação de que o sistema de transporte coletivo de Curitiba está sendo bem administrado. 

E que o povo pode usufruir dele pagando a nova tarifa, módica se comparada aos projetados R$ 5,20.

Ledo engano. A fixação da passagem em R$ 4,50 apenas eterniza uma distorção que encontra suas raízes em 2010 quando foi sacramentada a licitação e assinado o contrato de concessão sobre os quais, desde o início, pesavam suspeitas de ordem moral e fortes dúvidas quanto à sua viabilidade técnica.

Bastaram dois anos de vigência para que, em 2012, fossem reveladas as deficiências e se abrissem as portas para escancarado uso político da serviço público do transporte coletivo.

Deu-se em 2012 a liberação de subsídio estadual por parte do ex-governador Beto Richa, interessado na reeleição do correligionário Luciano Ducci à prefeitura de Curitiba.

O subsídio evitou que, naquele ano, a passagem subisse para além de R$ 2,60, o que, na teoria, era uma “bondade” que garantiria a vitória de Luciano Ducci, que concorria com Ratinho Jr. e o oposicionista Gustavo Fruet.

Quem ganhou a eleição foi Gustavo, a quem Beto Richa negou a continuidade do subsídio já no primeiro ano de gestão do novo prefeito.

E continuou negando nos anos seguintes até 2016, o que obrigou a administração municipal a fazer uma reengenharia financeira do sistema, separando o gerenciamento integrado das linhas urbanas das linhas metropolitanas.

Ao mesmo tempo, Gustavo tentou judicialmente resolver as distorções contratuais e estabelecer uma nova forma (e valores) de remuneração das concessionárias.

As ações judiciais, submetidas a inúmeros recursos e procrastinações, não deram resultado. Ou melhor: resultaram na negativa das empresas de manterem a renovação da frota e melhorarem os serviços.

Fruet terminou a gestão entregando ao seu sucessor, Rafael Greca, uma tarifa não subsidiada de R$ 3,70, uma frota envelhecida e uma integração metropolitana capenga.

O discurso de Greca no dia da vitória de cima do palanque festivo montado no Centro Cívico, ao lado de Beto Richa, foi o de anunciar que o subsídio estava prestes a voltar.

Ao mesmo tempo, pregava que as “coisas custam o que custam”, numa alusão ao fato de que seria necessário recompor o preço da passagem.

Um mês depois da posse, pouco antes de ser fotografado em happy hour no Country Club com Donato Gulin, chefe do cartel das empresas concessionárias, o prefeito anunciou a que seria, na época, a maior tarifa do país, R$ 4,25, um aumento equivalente ao triplo do índice de inflação do ano anterior.

Mesmo assim, o sistema continuou subsídio-dependente, com desmame cada vez mais difícil.

Em 2017, Beto manteve repasses mensais; em 2018, a governadora Cida Borghetti deu outros R$ 71 milhões.

E agora, para evitar dividir com Rafael Greca o desgaste político de ver a passagem subir para R$ 5,20, o governador Ratinho Jr. viu-se forçado a comprometer os cofres do estado a uma despesa extra de R$ 150 milhões.

Graças a esta providência é que a tarifa ficou em R$ 4,50.

Observe-se que os vultosos investimentos do governo estadual no transporte coletivo de Curitiba e região metropolitana apenas arranham a superfície e não desatam os verdadeiros nós que afetam o sistema.

Não se mexe nos contratos nem se busca uma sistemática se financiamento mais criativa, que promova equilíbrio justo entre receita e despesa, que torne o serviço de transporte auto-sustentável e que, sobretudo, não comprometa recursos públicos que poderiam ser utilizados em outras atividades essenciais do estado, como saúde e educação.

As contrapartidas exigidas pelo governo são tímidas.

À prefeitura de Curitiba pede-se tão somente que permita o tráfego de ônibus metropolitanos pelas canaletas exclusivas; que compartilhe terminais; que crie mais faixas exclusivas para ônibus nas ruas da capital; que facilite a integração tarifária com linhas que atendem os municípios limítrofes da capital…

Se ficar apenas nestas questões periféricas, a tendência é que o subsídio não apenas permaneça indefinidamente, como, principalmente, que os já exagerados montantes de verba pública estadual se tornem ainda maiores.

Enquanto isso, as ações judiciais, as recomendações do Tribunal de Contas e todo o resto que visava atingir o âmago dos problemas – isto é, a anulação ou a renegociação dos termos contratuais nocivos para a população – ficarão do jeito que o prefeito Rafael Greca e os donos das concessionárias combinaram: suspensos, esquecidos, congelados…